segunda-feira, 31 de maio de 2010

Entrevista a Catarina Salvador


Quais as suas recordações de infância?
Uma das principais recordações que tenho desses tempos é de nascer o meu irmão e cuidar dele aos 11 anos. Era quase como se fosse o meu boneco… Foi uma boa experiência, de tal maneira que a certa altura ele preferia estar com ele, que eu lhe escolhesse a sua roupa para a escola, de passear com ele, naturalmente porque tinha mais paciência para ele.  Lembro-me também de aprender a andar de bicicleta sozinha aos 11 anos. Além disso acabou por me ajudar com os meus futuros filhos. Um dia, quando ia às compras caí e esfolei o cotovelo, mas mesmo assim continuei o meu caminho e quando cheguei a casa tratei da minha ferida sem que os meus pais alguma vez soubessem. Pode se dizer que sempre fui um pouco maria-rapaz. Lembro-me de alguns colegas, que às vezes vejo e de algumas visitas de estudo. Também tenho algumas más recordações, como a minha professora de 4º ano, que nos batia constantemente. Por vezes chegava a casa e tinha a cabeça repleta de “galos”. Essa situação também se devia ao estado de saúde frágil da professora e à relativa que as professoras gozavam, algo que já não acontece hoje em dia. Outra coisa que me lembro é da partida e chegada do meu tio para a Angola, a propósito da Guerra Colonial. Recordo-me dos comportamentos dele, da forma estranha, distante e evasiva com que falava, com que se mexia. Isso contrastava bastante com a nossa, natural, alegria (até chegámos a dar uma festa com os nossos vizinhos), até porque, como se sabe, muitos não voltavam... A única maneira que tínhamos de ouvir notícias dele era através do rádio e de cartas. Mas, com o tempo, o meu tio acabou por voltar ao normal. Ainda a propósito da partida do meu tio, recordo-me da quantidade de gente que lá estava.     
Quais acha que são as diferenças do seu tempo para hoje?
Eu penso que no meu tempo, não querendo cair na tentação de recorrer ao chavão do costume e dizer que “no meu tempo é que era bom”, as pessoas eram mais próximas, ajudavam-se mais, talvez por terem menos dinheiro e, por isso, menos ambição… Em termos de ensino, por exemplo, acho que antigamente os professores tinham o trabalho mais dificultado porque algumas turmas em que estive tinam qualquer coisa como 38 alunos e, inclusivamente, alguns professores tinham que leccionar às 4 turmas da primária!

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